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O “11 de setembro” do tênis

Há 30 anos, o tênis mudou graças a uma facada




Sexta-feira, 30 de abril de 1993. Menos de um mês para o início de Roland Garros. Monica Seles disputava as quartas-de-final do WTA de Hamburgo contra a búlgara Magdalena Maleeva e vencia por 6/4 e 4/3. Na troca de lado, ela se sentou, passou a toalha sobre o rosto e aguardou. Assim que o árbitro disse “Tempo”, ela se abaixou para pegar o copo de água que estava no chão e tomar um gole. Nesse instante, sentiu uma dor lancinante nas costas.


“Minha cabeça virou para onde doía e vi um homem usando um boné de beisebol, com um sorriso de escárnio no rosto. Seus braços estavam levantados acima da cabeça e suas mãos seguravam uma longa faca. Ele começou a me atacar novamente. Eu não entendi o que estava acontecendo”, disse Seles anos mais tarde.


Günter Parche, um alemão torcedor fanático de Steffi Graf, logo foi contido pela multidão enquanto a iugoslava continuava sem entender o que havia acontecido. Ela tinha apenas 19 anos, era número 1 do mundo e havia vencido sete dos últimos oito Grand Slams de que havia participado, destronando exatamente a até então imbatível Graf – ganhadora do Golden Slam (os quatro Majors mais o ouro nas Olimpíadas) em 1988.


Ter alguém que desafiasse sua “deusa” foi demais para Parche, que decidiu pegar uma faca de cozinha e seguir para Hamburgo. Mentalmente perturbado, ele admitiu que seguiria Seles caso seu plano não funcionasse em solo alemão (o próximo torneio seria em Roma). Por sorte, o golpe não atingiu pontos vitais, mas a jovem não voltaria a jogar tão cedo e tampouco seria a mesma jogadora.


O atentado causou comoção. Jamais o tênis tinha vivenciado algo parecido. A convivência entre atletas e público sempre havia sido muito próxima. O acesso aos astros era quase irrestrito. Os torneios acreditavam que os espectadores do tênis, um esporte sempre ligado às boas maneiras, não tomariam atitudes extremadas. Havia seguranças, mas o trabalho, na maioria das vezes, era apenas acompanhar as partidas e seguir os jogadores no trajeto do vestiário até a quadra e vice-versa.




A partir desse ato extremista, contudo, a realidade mudou. As cadeiras dos tenistas passaram a ficar mais afastadas em relação à arquibancada. Em certos torneios, colocaram-se algumas barreiras entre a quadra e o público. Seguranças passaram não somente a escoltar os atletas até a quadra, mas também ficar atentos para qualquer movimentação na plateia e evitar invasões. Os tenistas passaram a ser cada vez mais discretos em relação aos hotéis onde ficam hospedados e também à sua rotina, andando quase sempre acompanhados por seguranças.

Graças aos seus distúrbios mentais, Parche nunca ficou realmente preso, sendo condenado a dois anos em liberdade condicional. Ele morreu no ano passado, aos 68 anos, em uma casa de repouso. Seles, que revolucionou o tênis devido aos seus golpes extremamente agressivos com duas mãos tanto no forehand quanto no backhand, mas também especialmente por ser uma das precursoras do swing volley, voltou a jogar no fim de 1995, e ganhou um Grand Slam em 1996, na Austrália, todavia nunca mais dominou o circuito como naqueles primeiros anos mágicos da década de 1990 devido a crises de ansiedade e outros transtornos que acompanharam sua carreira desde aquele fatídico dia.


Escrito por: Arnaldo Grizzo

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