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O Grand Slam perdido

Há 90 anos, Jack Crawford perdeu a chance de ser um pioneiro



John Herbert Crawford fez parte de uma geração de ouro do tênis australiano que contou com nomes como Harry Hopman, Adrian Quist, Viv McGrath, John Bromwich, entre outros. Estamos falando do final dos anos 1920 e começo dos anos 1930. Crawford era um dos expoentes desse período. Antes de vencer seu primeiro Australian Open “adulto”, ele já havia ganhado o torneio juvenil de seu país quatro vezes seguidas, de 1926 a 1929.


Em 1933, há 90 anos, ele começou o ano conquistando o Australian Open pela terceira vez seguida (já havia conquistado o título em 1931 e 1932). Asmático, diz-se que Crawford recuperou-se de uma crise pouco antes de Roland Garros, e venceu o torneio francês. Seguiu então para Londres, onde era conhecido como “Gentleman Jack”, o Cavalheiro Jack, por seu cabelo sempre repartido, suas calças e camisas de manga compridas tal como os uniformes de críquete, além de seu estilo de jogo limpo e plástico predominantemente de fundo de quadra. Ele usava uma raquete de cabeça quadrada e diz-se que, durante as partidas, gostava de tomar chá (com leite e açúcar) e, por isso, deixava água quente perto da cadeira do árbitro (apesar de haver controvérsias quanto ao que ele realmente bebia).




Na final de Wimbledon, ele venceu o jovem prodígio americano Ellsworth Vines em uma partida histórica e fez o que até então ninguém sequer havia imaginado: faltava-lhe vencer o US Open para abocanhar os quatro principais torneios de tênis do planeta. O termo Grand Slam não existia e só seria cunhado pouco antes do Aberto dos Estados Unidos daquele ano quando um colunista do New York Times, John Kieran, escreveu que Jack poderia “fazer algo como marcar um ‘grand slam’”.


Quando chegou a Nova York, contudo, Crawford não estava confortável. Ele já havia passado cinco meses competindo sem parar e vencido 13 torneios seguidos. Diz-se que estava tendo ataques frequentes de asma e sofria com insônia. Ele queria voltar para a casa e não disputar o US Open, mas a associação australiana de tênis recebeu US$ 1.500 da associação americana para garantir a presença de Jack na competição – na época, os tenistas eram amadores, não recebiam prêmio em dinheiro e tinham de obedecer às federações de seus países.




Crawford então avançou à final sem dificuldades. Lá enfrentou Fred Perry, um ferrenho competidor, mas que, até então, nunca havia vencido um dos quatro grandes torneios. Em uma tarde de muito calor em Forest Hills (o US Open era disputado sobre grama na época), Perry venceu o primeiro set (6/3) e Crawford reverteu o placar com muito custo (13/11 e 6/4 – também não havia tiebreak). Durante o intervalo, no entanto, Fred foi ao vestiário e tomou um banho refrescante enquanto Jack permaneceu em quadra com o mesmo uniforme encharcado de suor. Diz-se ainda que, seu amigo Vinnie Richards “batizou” seu chá com uísque para “acordá-lo” (mas há quem diga que ele tomava isso frequentemente para melhorar a respiração e evitar crises de asma). Porém, independentemente do marasmo e talvez do “chá”, a verdade é que Perry voltou arrasador e Jack conseguiu fazer apenas um game nos dois sets seguintes, perdendo a chance de completar o Grand Slam – fato que só ocorreria cinco anos mais tarde com Don Budge.


Escrito por: Arnaldo Grizzo

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