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OS ARREPENDIMENTOS DO NICK

Atualizado: 18 de mai. de 2023

Um dos maiores treinadores de todos os tempos faleceu aos 91 anos.



Quando Andre Agassi e Jim Courier entraram para disputar a terceira rodada de Roland Garros em 1989, esse jogo certamente ficaria eternizado na mente de Nick Bollettieri. Com quase 60 anos, o treinador vivia ali um dos grandes momentos de sua carreira, com dois dos seus maiores talentos disputando uma partida crucial de Grand Slam. Mas esse momento definidor ficou gravado na mente de Nick na forma de um arrependimento terrível, que ele lamentou até seus últimos dias.


Bollettieri faleceu aos 91 anos no dia 5 de dezembro de 2022. Até pouquíssimo tempo atrás, estava em quadra. Sim, Nick nunca pensou em se aposentar. “Acho que a palavra aposentadoria deveria ser retirada de todos os dicionários do mundo...”, disse uma vez. Mesmo oitentão, mantinha uma rotina de trabalho invejável, acordando todo dia antes das 5h da manhã e supervisionando treinamentos até 7h da noite. Esse vigor e dedicação eram resquícios de seu tempo no exército na década de 1950.


Mas como um filho de imigrantes napolitanos, que cursou faculdade de filosofia, foi capaz de se transformar no mais famoso treinador de tênis de todos os tempos – com mais um “agravante”: com pouca prática no esporte? Determinação e uma visão inovadora para a época fazem parte da resposta. Nick literalmente aprendeu observando (e copiando) outros treinadores e acabou sendo convidado para trabalhar em resorts importantes. Num deles, fez amizade com a poderosa família Rockfeller, o que lhe abriu diversas portas.


Em 1980, pegou um grande empréstimo com um amigo e fundou, sobre um campo de tomates, o que se tornaria a maior referência em academias de tênis do planeta, em Bradenton, na Flórida – que hoje é gerida pela IMG. A ideia de Nick era simples, mas revolucionária: colocar os melhores jogadores para treinar com os melhores e assim eles evoluiriam – usando também uma metodologia análoga aos rígidos treinamentos militares. Durante anos, passaram por suas quadras e sua “mentoria” gente do gabarito de Brad Gilbert, Aaron Krickstein, Monica Seles, David Wheaton, Mary Pierce, Martina Hingis, Venus e Serena Williams, Maria Sharapova, Marcelo Rios, Boris Becker, e inúmeros outros, além obviamente dos dois protagonistas do episódio que comentamos no início deste texto: os prodígios Andre Agassi e Jim Courier.





Naquele fatídico dia, Bollettieri – que havia ensinado tanto aos seus pupilos – aprenderia uma dolorosa lição. Ao começar a partida, Nick decidiu se sentar no box reservado para a equipe de Agassi. “Quando Jim olhou para cima e me viu, ficou devastado”, lembrou. Courier deu poucas chances a Agassi naquele jogo. Tempos depois, ele abandonou a academia. No ano seguinte, eles se enfrentaram novamente em Paris, desta vez nas oitavas. Agassi venceu e foi à final (perdendo para Andrés Gomez). Em 1991, eles se enfrentaram novamente em Roland Garros, mas na decisão. Na época, José Higueras treinava Courier e Bollettieri continuava com Agassi. E Courier venceu seu primeiro Grand Slam na carreira. Ele se sagraria bicampeão no ano seguinte e Agassi só conseguiria levantar seu troféu na França em 1999.


O fim da relação com Agassi também é um dos maiores arrependimentos da vida de Bollettieri. Depois do título de Wimbledon em 1992, Andre estava vivendo um momento conturbado em sua vida, afastando-se de algumas pessoas. Nick viu nesse comportamento um alerta de que a parceria estaria no fim e decidiu se antecipar. Porém, em vez de sentar para conversar com o pupilo, escreveu uma carta. Contudo, antes mesmo de a carta chegar às mãos de Andre, deu uma entrevista falando sobre o rompimento entre eles.


“Se tivesse entrado em um avião, sentado com Andre e lhe dito por que queria deixar a equipe, as coisas podiam ter sido diferentes. Questões de sensibilidade merecem respostas bem pensadas. E quando se lida com amigos e pessoas queridas, a resposta deve mostrar o respeito que o relacionamento merece. Sei que era como um pai para ele e deveria ter feito algo melhor por ele. Se tivesse lidado com o problema apropriadamente, talvez tivéssemos nos mantido uma equipe, quem sabe?”


Se não é o maior treinador que já houve, Bollettieri certamente tem um espaço entre eles. Quando se olha para uma carreira tão longa, é fácil para quem está de fora apontar erros e acertos, mas é muito difícil para quem a viveu admitir os seus grandes erros e ter que ficar remoendo-os. Ao fazer isso, aprender e superar, Nick mostra mais uma vez a sua grandiosidade. E lembre-se, hoje, se você e os melhores do mundo treinam em uma academia ou centro de treinamento, têm uma rotina de treino definida e rigorosa, deve isso a Bollettieri.



Escrito por: Arnaldo Grizzo

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